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Sábado, 01 de Novembro de 2014 | Última atualização ocorreu às 13:52hr

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O que os olhos não vêem a genética sente

O que os olhos não vêem a genética sente. Bem no meio do Rio Grande do Sul duas espécies de gatos selvagens estão em constante troca de casais.

Um levantamento inédito dos DNAs do gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus) e do gato-do-mato-grande (Leopardus geoffroyi) revela que machos e fêmeas de ambos os grupos não só estão se cruzando como também gerando descendentes férteis.

"Os fenótipos [aparência física] dos dois grupos mostram as características normais de cada espécie. Mas, quando analisamos o DNA deles observamos a mistura genética", diz Eduardo Eizirik, professor da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).

O estudo, que será publicado no periódico científico "Molecular Ecology", teve resultados apresentados no 54º Congresso Brasileiro de Genética, em Salvador. Ele tem como autora principal a pesquisadora Tatiane Campos Trigo.

De acordo com Eizirik, que há mais de 15 anos estuda os mamíferos carnívoros da América do Sul, os membros das duas espécies de gato-do-mato estão com dificuldades de reconhecer seus pares biológicos.

O futuro desse processo de hibridização dos carnívoros gaúchos, que, tudo indica, não é resultado da grande deterioração natural que o Estado sofre, será moldado daqui para frente pelo curso da seleção natural, diz o cientista da PUC-RS.

"Existem três desfechos possíveis", afirma. Se a seleção natural privilegiar a sobrevivência dos filhotes híbridos, tudo indica que essa zona de mistura continuará estável.

Caso contrário, os filhos das trocas de casais podem perder importância dentro da evolução dos dois grupos e a mistura deixaria de ocorrer.

Mas também existe um terceiro caminho possível: "As duas espécies também poderão virar uma única".

Início do namoro

Se a seleção natural terá muito trabalho pela frente para separar ou não as espécies, os cientistas também. Com os dados disponíveis hoje não é possível saber quando a hibridização entre os felinos começou.

"Sabemos só que essas duas espécies se separaram há mais ou menos 1 milhão de anos", diz Eizirik. Segundo o pesquisador, o gênero Leopardus tem sete representantes na América do Sul. "Todos descenderam de um único ancestral, provavelmente extinto, que chegou na região há aproximadamente 3 milhões de anos."

Hoje em dia, enquanto o gato-do-mato-grande ocupa da metade do Rio Grande do Sul para o Sul do continente, o pequeno ocorre ao norte, inclusive no cerrado e no Nordeste.

É exatamente nesta região, dizem outras pesquisas ainda inéditas do grupo gaúcho, que uma zona de hibridização existiu no passado. Há milhares de anos, o L. tigrinus se misturou com o gato-palheiro (Leopardus colocolo). "As análises mostram algo como um DNA fóssil", afirma Eizirik.

Apesar de o troca-troca genético ter ocorrido há muito tempo, o DNA do gato-palheiro permaneceu preservado no gato-do-mato-pequeno, indicam as análises.

 

 

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